Estudo explicado

Parciais alongadas na rosca Scott: o que o estudo mostra e como aplicar

Por Prof. Dr. João Augusto Reis de Moura CREF 007870-G/SC

Baseado em Tim Havers et al., European Journal of Sport Science, 2025 · Atualizado em 19/10/2026 · 7 min de leitura

Em 30 segundos

A perguntaFazer a rosca Scott só na parte de baixo do movimento, com o bíceps alongado, faz o braço crescer mais do que a rosca completa?

Quase empate. Os dois braços cresceram em 8 semanas. A parcial levou leve vantagem perto do cotovelo (7,60% contra 4,38%); a completa, no 1RM (28,01% contra 21,59%).

  • HipertrofiaQuase empateLeve vantagem da parcial perto do cotovelo
  • Força no 1RMVantagem da completaDiferença pequena
  • ConfiançaBaixa a moderada13 pessoas, 8 semanas
  • 13 pessoas treinadas, um braço em cada técnica, por 8 semanas.
  • Hipertrofia: parecida no meio do braço; um pouco maior com a parcial perto do cotovelo.
  • Força: vantagem da completa no 1RM; da parcial, na isométrica a 100°.

O que muda no treinoA parcial alongada é uma opção válida, não obrigação. Para subir a carga na rosca, mantenha a amplitude completa.

Termos que vão aparecer (1 minuto)
ADM (range of motion, ROM)
Amplitude de movimento: o quanto a articulação se move em cada repetição. Na rosca, é o quanto o cotovelo dobra.
Amplitude completa (full range of motion, fROM)
Rosca do cotovelo estendido até a flexão máxima de cada pessoa, cerca de 0° a 140°.
Parcial alongada (initial partial range of motion, pROMinitial, ou lengthened partials)
Rosca só na parte inicial do movimento, de 0° a 70°, onde o bíceps está mais alongado. É a parte de baixo da rosca Scott.
1RM (one-repetition maximum)
A maior carga que a pessoa levanta uma vez só, com técnica correta.
CVM (maximal voluntary contraction, MVC)
Contração voluntária máxima: força máxima feita sem mover a articulação (força isométrica), com o cotovelo parado num ângulo fixo. Aqui, a 40° e a 100°.
Espessura muscular (muscle thickness)
A "grossura" do músculo, medida por ultrassom num ponto fixo do braço. Quando o músculo cresce, ela aumenta.
SMD (standardized mean difference)
Diferença padronizada: a diferença entre as condições dividida pela variação entre as pessoas. Permite comparar resultados em centímetros e em quilos na mesma régua.
BF (Bayes factor)
Fator de Bayes: quantas vezes os dados combinam mais com a ideia de que as condições diferem do que com a ideia de que não diferem. Abaixo de 3, evidência fraca; de 3 a 10, moderada.
Volume de carga (volume load)
Séries × repetições × carga de cada sessão. Mostra quanto trabalho cada braço fez.

Ficha do estudo

Título
Amplitude parcial, ganhos completos? O efeito de 8 semanas de treino com amplitude parcial em músculo alongado na hipertrofia e na força dos flexores do cotovelo em pessoas treinadas
Original: Partial Range, Full Gains? The Effect of 8 Weeks of Partial Range of Motion Training at Long Muscle Lengths on Elbow Flexor Hypertrophy and Strength in Trained Individuals
Autores
Tim Havers, Niklas Wagner, Steffen Held, Stephan Geisler, Thimo Wiewelhove
Revista
European Journal of Sport Science, 2025; 25:e70087
DOI
10.1002/ejsc.70087
Tipo
Ensaio randomizado intrassujeito (um braço em cada condição)
Participantes
13 pessoas analisadas
Duração
8 semanas de treino (10 com os testes)
Registro
German Clinical Trials Register (DRKS), número DRKS00035811

Nível de evidência

  • DesenhoEnsaio randomizado, com um braço em cada técnica
  • Amostra13 pessoas treinadas: pequena
  • Duração8 semanas: curta para treinados
  • CegamentoAvaliador do ultrassom sem saber qual braço era qual

Bom desenho, mas pequeno e curto: soma, não fecha a questão.

Por que isso importa

As parciais alongadas (em inglês, lengthened partials) viraram moda: treinar só o trecho em que o músculo está mais esticado.

Quase toda a pesquisa foi feita com iniciantes. Este estudo testou pessoas treinadas na rosca Scott (em inglês, preacher curl), a resposta para o aluno que quer cortar a rosca pela metade.

Quem foi estudado

  • 13pessoas analisadas
  • 11 + 2homens e mulheres
  • 6,0anos de musculação
  • 18–35anos de idade

Pessoas saudáveis, com pelo menos 2 anos de musculação.

Seu aluno se parece com quem foi estudado?

É o perfil do estudo (média de 6 anos de musculação).

Não foi estudado.

Só 2 das 13 pessoas eram mulheres: aplique com cautela.

Fora da faixa estudada (18 a 35 anos).

Critérios para entrar e para sair do estudo

Entrada

  • Ter entre 18 e 35 anos
  • Ter pelo menos 2 anos de experiência em musculação, com média de duas sessões por semana
  • Não usar esteroides anabolizantes nem outras substâncias para ganho muscular (informação dada pelo próprio participante)
  • Assinar o termo de consentimento e a declaração de proteção de dados e responder ao questionário de prontidão para atividade física (PAR-Q)

Saída

  • Ir a menos de 85% das sessões de treino: a pessoa saía da análise final
  • O artigo não lista outros motivos de exclusão

Como foi feito

A linha do tempo

  1. Semana 1Testes iniciais de espessura e força.
  2. Semanas 2 a 916 sessões: um braço na completa, outro na parcial.
  3. Semana 10Os mesmos testes.

Veja a diferença de amplitude

Amplitude completa
ombrocotovelo

Bíceps: bem alongado

Parcial alongada
ombrocotovelo

Bíceps: bem alongado

Cotovelo a 0°: os dois braços fazem o mesmo trecho, com o bíceps alongado.

Desenho esquemático, não é figura do artigo. 0° = cotovelo estendido.

  • Exercício: rosca Scott unilateral. Na parcial, uma trava parava o cotovelo em 70°; na completa, ele ia até cerca de 140°.
  • Volume: 5 séries por braço, 2 vezes por semana, até a falha.
  • Carga: começou em 65% do 1RM, ajustada para 10 a 15 repetições.
  • Ritmo: cerca de 2 s na descida e 1 s na subida.
Como mediram cada resultado

Espessura por ultrassom, em dois pontos do braço, e três testes de força. O ultrassom mede juntos bíceps, braquial e braquiorradial.

  • Espessura muscular: ultrassom (Mindray DP-50, sonda linear de 8,5 MHz) em dois pontos do braço, a 50% e a 70% da distância entre o ombro (acrômio) e a dobra do cotovelo (fossa cubital). Pessoa deitada de barriga para cima, braço relaxado ao lado do corpo, três imagens por ponto, sempre o mesmo avaliador, que não sabia qual braço fez qual treino.
  • Força isométrica máxima (CVM): num aparelho montado pelos autores, com banco inclinado a 65° para imitar o banco Scott, a pessoa puxava com toda a força uma corda presa a um dinamômetro, com o cotovelo parado a 40° e depois a 100°. Uma tentativa por braço.
  • 1RM: maior carga levantada uma vez na máquina de rosca Scott (gym80 3010), um braço por vez, em até 3 tentativas, com pelo menos 3,5 min de descanso entre elas e anilhas de 0,5 kg para ajuste fino.
  • Volume de carga: séries × repetições × carga, anotado em todas as sessões de treino.

O que foi encontrado

Quanto cada braço mudou, em porcentagem. Toque numa barra para ver o valor.

Antes de ver: perto do cotovelo, qual braço cresceu mais?

Espessura: quanto cada braço cresceu

  • Amplitude completa (0°–140°)
  • Parcial alongada (0°–70°)
−5051015variação (%)Espessura muscular a 50%, amplitude completa: variação de 2,870% (desvio-padrão 4,870)2,87Espessura muscular a 50%, parcial alongada: variação de 5,060% (desvio-padrão 4,770)5,06Meio do braço(50%)Espessura muscular a 70%, amplitude completa: variação de 4,380% (desvio-padrão 4,250)4,38Espessura muscular a 70%, parcial alongada: variação de 7,600% (desvio-padrão 4,670)7,60Perto do cotovelo(70%)

Os dois cresceram. No meio do braço, quase igual; perto do cotovelo, a parcial cresceu mais, com evidência moderada.

Em milímetros, perto do cotovelo: 1,2 mm na completa e 2,3 mm na parcial; vantagem de 1,1 mm.

E no 1RM, qual braço ganhou mais?

Força: quanto cada braço ganhou

  • Amplitude completa (0°–140°)
  • Parcial alongada (0°–70°)
−40−200204060variação (%)Força isométrica a 40°, amplitude completa: variação de −3,840% (desvio-padrão 16,250)−3,84Força isométrica a 40°, parcial alongada: variação de −4,230% (desvio-padrão 14,710)−4,23Isométricaa 40°Força isométrica a 100°, amplitude completa: variação de 3,810% (desvio-padrão 6,450)3,81Força isométrica a 100°, parcial alongada: variação de 6,460% (desvio-padrão 8,050)6,46Isométricaa 100°1RM, amplitude completa: variação de 28,010% (desvio-padrão 17,780)28,011RM, parcial alongada: variação de 21,590% (desvio-padrão 13,580)21,591RM

A completa ganhou mais 1RM; a 100°, a parcial foi um pouco melhor. A 40°, os dois perderam um pouco, em parte pela medida menos precisa.

Quão forte é a evidência de diferença?

Espessura 50%2,66
Espessura 70%4,87
Isométrica 40°1,75
Isométrica 100°3,02
1RM1,95

Régua de 0 a 10. A partir de 10 a evidência seria “forte”; nenhum resultado chegou lá.

O fator de Bayes mede o quanto os dados apoiam que as técnicas diferem: de 1,75 a 4,87, evidência fraca a moderada.

Gráficos redesenhados a partir dos dados de Havers et al., 2025. A barra fina é o desvio-padrão (variação entre as pessoas).

Ver os números em tabela
Médias antes (pré) e depois (pós) do treino, ± desvio-padrão
ResultadoCompleta préCompleta pósParcial préParcial pós
Espessura muscular a 50% do braço (cm)2,90 ± 0,923,01 ± 1,012,94 ± 0,973,08 ± 1,00
Espessura muscular a 70% do braço (cm)2,94 ± 0,533,06 ± 0,553,01 ± 0,613,24 ± 0,67
Força isométrica a 40° (kg)42,45 ± 12,0540,84 ± 13,5441,09 ± 11,1139,15 ± 10,81
Força isométrica a 100° (kg)28,35 ± 6,1629,52 ± 7,1428,26 ± 6,8129,91 ± 6,73
1RM (kg)35,23 ± 13,0843,88 ± 16,2235,04 ± 13,3241,77 ± 15,42
Diferença entre as condições, com intervalo de incerteza e fator de Bayes
ResultadoDiferença estimada (padronizada)Prob. posteriorFator de Bayes
Espessura muscular a 50% do braço0,04 [−0,09 a 0,17]72,7%2,66 (evidência fraca)
Espessura muscular a 70% do braço0,10 [−0,10 a 0,31]83,0%4,87 (evidência moderada)
Força isométrica a 40°−0,14 [−0,90 a 0,61]36,3%1,75 (evidência fraca)
Força isométrica a 100°0,24 [−0,47 a 0,93]75,1%3,02 (evidência moderada)
1RM0,17 [−0,63 a 0,94]66,1%1,95 (evidência fraca)

Como interpretar

Tamanho do efeito: quão grande é a diferença?

Porcentagem engana. Pela diferença padronizada (a diferença dividida pela variação entre as pessoas), a vantagem da parcial foi de 0,10: trivial a pequena, segundo os autores.

No 1RM, a completa ganhou quase 2 kg a mais.

Evidência: quão seguros estamos?

Na régua dos autores, fator de Bayes abaixo de 3 é evidência fraca; de 3 a 10, moderada.

Evidência fraca de diferença não prova igualdade: com 13 pessoas, falta precisão.

Leitura honesta: provável vantagem pequena da parcial perto do cotovelo, e as duas técnicas funcionam.

Quanto confiar

Moderada para “as duas funcionam”; baixa para “uma é melhor”

Pontos fortes

  • Sorteio do braço de cada técnica; cada pessoa foi o próprio controle.
  • Avaliador do ultrassom sem saber qual braço era qual.
  • Pessoas treinadas, o público que mais faltava nessa pesquisa.

Limitações apontadas pelos autores

  • Amostra pequena, que pode ter escondido diferenças.
  • Oito semanas podem ser pouco para mostrar todo o crescimento em treinados.
  • O ultrassom não separou bíceps, braquial e braquiorradial.
  • Vale só para pessoas já treinadas.
  • A força isométrica a 40° foi a medida menos precisa.

Limitações que identificamos

  • Só 2 das 13 pessoas eram mulheres, e não há análise separada: o resultado vem quase todo de homens.
  • A carga não foi igualada entre os braços: a parcial levantou mais volume de carga desde o início. Não dá para separar o efeito da amplitude do efeito desse volume maior, como os próprios autores reconhecem na Discussão.
  • O relato tem inconsistências: o resumo diz que a completa ganhou mais força a 100°, enquanto a Tabela 1, a Discussão, os pontos-chave e a Conclusão mostram vantagem da parcial; e a Tabela 2 põe cm e kg em valores que o texto chama de diferença padronizada.

O que o estudo NÃO responde

  • Se vale para iniciantes, idosos ou atletas de competição.
  • Se vale para outras roscas ou outros músculos.
  • O que acontece depois de 8 semanas.
  • Se a vantagem veio da amplitude ou do volume de carga maior da parcial.

Na prática

Cada dica traz uma etiqueta: o quanto o estudo a apoia.

Perfil do aluno
  • Apoiado diretamente pelo estudo

    Pode usar a parcial alongada (0° a 70°) no lugar da completa sem perder hipertrofia, ao menos por 8 semanas.

    É o perfil da amostra; a vantagem da parcial tem evidência fraca a moderada.

  • Apoiado diretamente pelo estudo

    Para enfatizar a região perto do cotovelo, prefira a parcial.

    Foi onde ela levou vantagem, ainda que pequena.

  • Extrapolação razoável

    Leve a ideia para outras roscas, no trecho em que o bíceps está alongado.

    Só a rosca Scott foi testada; em outras, a parte mais pesada do movimento muda de ângulo.

  • Hipótese de aplicação

    Combine as duas: séries completas e parciais no mesmo treino.

    Junta o ponto forte de cada técnica, mas não foi testado.

  • Apoiado diretamente pelo estudo

    Para subir o 1RM, mantenha a amplitude completa.

    Ela ganhou mais, mas a evidência é fraca (fator de Bayes 1,95).

  • Extrapolação razoável

    A parcial alongada provavelmente também funciona.

    Não foram estudados, mas os autores citam estudos com destreinadas em que ela levou vantagem.

Teste rápido

1 de 5 Onde a parcial alongada levou vantagem?

2 de 5 Qual técnica ganhou mais 1RM?

3 de 5 Um fator de Bayes de 1,95 significa…

4 de 5 Por que o resultado vale mais para alunos experientes?

5 de 5 Qual é a principal limitação do estudo?

Perguntas frequentes

Repetição parcial dá hipertrofia?

Dá. Com pessoas treinadas, a rosca Scott parcial (0° a 70°) fez o braço crescer tanto quanto a completa, com leve vantagem perto do cotovelo.

O que são parciais alongadas?

Repetições só no trecho em que o músculo está mais esticado: na rosca Scott, do braço estendido até 70°.

Parcial alongada é melhor que amplitude completa para o bíceps?

Só um pouco, perto do cotovelo. A completa ganhou mais 1RM. As duas funcionam.

Referência completa

Havers T, Wagner N, Held S, Geisler S, Wiewelhove T. Partial Range, Full Gains? The Effect of 8 Weeks of Partial Range of Motion Training at Long Muscle Lengths on Elbow Flexor Hypertrophy and Strength in Trained Individuals. European Journal of Sport Science. 2025;25:e70087. doi:10.1002/ejsc.70087

Ler o artigo original (DOI)

Texto e explicações produzidos pelo Treino em FOCO; os gráficos foram desenhados do zero a partir dos números publicados. O artigo original é de acesso aberto, sob licença CC BY-NC-ND. Este conteúdo é educativo e não substitui a leitura do artigo.

Prof. Dr. João Augusto Reis de Moura

Prof. Dr. João Augusto Reis de Moura CREF 007870-G/SC
Prof. Dr. João Moura tem mais de 30 anos de trajetória na Educação Física e mais de 20 anos no ensino superior. No Treino em FOCO Play, ensina Personal Trainers a transformar a ciência do treinamento em decisões práticas e seguras.

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