Estudo explicado
Parciais alongadas na rosca Scott: o que o estudo mostra e como aplicar
Por Prof. Dr. João Augusto Reis de Moura CREF 007870-G/SC
Em 30 segundos
A perguntaFazer a rosca Scott só na parte de baixo do movimento, com o bíceps alongado, faz o braço crescer mais do que a rosca completa?
Quase empate. Os dois braços cresceram em 8 semanas. A parcial levou leve vantagem perto do cotovelo (7,60% contra 4,38%); a completa, no 1RM (28,01% contra 21,59%).
- HipertrofiaQuase empateLeve vantagem da parcial perto do cotovelo
- Força no 1RMVantagem da completaDiferença pequena
- ConfiançaBaixa a moderada13 pessoas, 8 semanas
- 13 pessoas treinadas, um braço em cada técnica, por 8 semanas.
- Hipertrofia: parecida no meio do braço; um pouco maior com a parcial perto do cotovelo.
- Força: vantagem da completa no 1RM; da parcial, na isométrica a 100°.
O que muda no treinoA parcial alongada é uma opção válida, não obrigação. Para subir a carga na rosca, mantenha a amplitude completa.
Termos que vão aparecer (1 minuto)
- ADM (range of motion, ROM)
- Amplitude de movimento: o quanto a articulação se move em cada repetição. Na rosca, é o quanto o cotovelo dobra.
- Amplitude completa (full range of motion, fROM)
- Rosca do cotovelo estendido até a flexão máxima de cada pessoa, cerca de 0° a 140°.
- Parcial alongada (initial partial range of motion, pROMinitial, ou lengthened partials)
- Rosca só na parte inicial do movimento, de 0° a 70°, onde o bíceps está mais alongado. É a parte de baixo da rosca Scott.
- 1RM (one-repetition maximum)
- A maior carga que a pessoa levanta uma vez só, com técnica correta.
- CVM (maximal voluntary contraction, MVC)
- Contração voluntária máxima: força máxima feita sem mover a articulação (força isométrica), com o cotovelo parado num ângulo fixo. Aqui, a 40° e a 100°.
- Espessura muscular (muscle thickness)
- A "grossura" do músculo, medida por ultrassom num ponto fixo do braço. Quando o músculo cresce, ela aumenta.
- SMD (standardized mean difference)
- Diferença padronizada: a diferença entre as condições dividida pela variação entre as pessoas. Permite comparar resultados em centímetros e em quilos na mesma régua.
- BF (Bayes factor)
- Fator de Bayes: quantas vezes os dados combinam mais com a ideia de que as condições diferem do que com a ideia de que não diferem. Abaixo de 3, evidência fraca; de 3 a 10, moderada.
- Volume de carga (volume load)
- Séries × repetições × carga de cada sessão. Mostra quanto trabalho cada braço fez.
Ficha do estudo
- Título
- Amplitude parcial, ganhos completos? O efeito de 8 semanas de treino com amplitude parcial em músculo alongado na hipertrofia e na força dos flexores do cotovelo em pessoas treinadas
Original: Partial Range, Full Gains? The Effect of 8 Weeks of Partial Range of Motion Training at Long Muscle Lengths on Elbow Flexor Hypertrophy and Strength in Trained Individuals - Autores
- Tim Havers, Niklas Wagner, Steffen Held, Stephan Geisler, Thimo Wiewelhove
- Revista
- European Journal of Sport Science, 2025; 25:e70087
- DOI
- 10.1002/ejsc.70087
- Tipo
- Ensaio randomizado intrassujeito (um braço em cada condição)
- Participantes
- 13 pessoas analisadas
- Duração
- 8 semanas de treino (10 com os testes)
- Registro
- German Clinical Trials Register (DRKS), número DRKS00035811
Nível de evidência
- DesenhoEnsaio randomizado, com um braço em cada técnica
- Amostra13 pessoas treinadas: pequena
- Duração8 semanas: curta para treinados
- CegamentoAvaliador do ultrassom sem saber qual braço era qual
Bom desenho, mas pequeno e curto: soma, não fecha a questão.
Por que isso importa
As parciais alongadas (em inglês, lengthened partials) viraram moda: treinar só o trecho em que o músculo está mais esticado.
Quase toda a pesquisa foi feita com iniciantes. Este estudo testou pessoas treinadas na rosca Scott (em inglês, preacher curl), a resposta para o aluno que quer cortar a rosca pela metade.
Quem foi estudado
- 13pessoas analisadas
- 11 + 2homens e mulheres
- 6,0anos de musculação
- 18–35anos de idade
Pessoas saudáveis, com pelo menos 2 anos de musculação.
Critérios para entrar e para sair do estudo
Entrada
- Ter entre 18 e 35 anos
- Ter pelo menos 2 anos de experiência em musculação, com média de duas sessões por semana
- Não usar esteroides anabolizantes nem outras substâncias para ganho muscular (informação dada pelo próprio participante)
- Assinar o termo de consentimento e a declaração de proteção de dados e responder ao questionário de prontidão para atividade física (PAR-Q)
Saída
- Ir a menos de 85% das sessões de treino: a pessoa saía da análise final
- O artigo não lista outros motivos de exclusão
Como foi feito
A linha do tempo
- Semana 1Testes iniciais de espessura e força.
- Semanas 2 a 916 sessões: um braço na completa, outro na parcial.
- Semana 10Os mesmos testes.
Veja a diferença de amplitude
Bíceps: bem alongado
Bíceps: bem alongado
Cotovelo a 0°: os dois braços fazem o mesmo trecho, com o bíceps alongado.
Desenho esquemático, não é figura do artigo. 0° = cotovelo estendido.
- Exercício: rosca Scott unilateral. Na parcial, uma trava parava o cotovelo em 70°; na completa, ele ia até cerca de 140°.
- Volume: 5 séries por braço, 2 vezes por semana, até a falha.
- Carga: começou em 65% do 1RM, ajustada para 10 a 15 repetições.
- Ritmo: cerca de 2 s na descida e 1 s na subida.
Como mediram cada resultado
Espessura por ultrassom, em dois pontos do braço, e três testes de força. O ultrassom mede juntos bíceps, braquial e braquiorradial.
- Espessura muscular: ultrassom (Mindray DP-50, sonda linear de 8,5 MHz) em dois pontos do braço, a 50% e a 70% da distância entre o ombro (acrômio) e a dobra do cotovelo (fossa cubital). Pessoa deitada de barriga para cima, braço relaxado ao lado do corpo, três imagens por ponto, sempre o mesmo avaliador, que não sabia qual braço fez qual treino.
- Força isométrica máxima (CVM): num aparelho montado pelos autores, com banco inclinado a 65° para imitar o banco Scott, a pessoa puxava com toda a força uma corda presa a um dinamômetro, com o cotovelo parado a 40° e depois a 100°. Uma tentativa por braço.
- 1RM: maior carga levantada uma vez na máquina de rosca Scott (gym80 3010), um braço por vez, em até 3 tentativas, com pelo menos 3,5 min de descanso entre elas e anilhas de 0,5 kg para ajuste fino.
- Volume de carga: séries × repetições × carga, anotado em todas as sessões de treino.
O que foi encontrado
Quanto cada braço mudou, em porcentagem. Toque numa barra para ver o valor.
Antes de ver: perto do cotovelo, qual braço cresceu mais?
Espessura: quanto cada braço cresceu
- Amplitude completa (0°–140°)
- Parcial alongada (0°–70°)
Os dois cresceram. No meio do braço, quase igual; perto do cotovelo, a parcial cresceu mais, com evidência moderada.
Em milímetros, perto do cotovelo: 1,2 mm na completa e 2,3 mm na parcial; vantagem de 1,1 mm.
E no 1RM, qual braço ganhou mais?
Força: quanto cada braço ganhou
- Amplitude completa (0°–140°)
- Parcial alongada (0°–70°)
A completa ganhou mais 1RM; a 100°, a parcial foi um pouco melhor. A 40°, os dois perderam um pouco, em parte pela medida menos precisa.
Quão forte é a evidência de diferença?
Régua de 0 a 10. A partir de 10 a evidência seria “forte”; nenhum resultado chegou lá.
O fator de Bayes mede o quanto os dados apoiam que as técnicas diferem: de 1,75 a 4,87, evidência fraca a moderada.
Gráficos redesenhados a partir dos dados de Havers et al., 2025. A barra fina é o desvio-padrão (variação entre as pessoas).
Ver os números em tabela
| Resultado | Completa pré | Completa pós | Parcial pré | Parcial pós |
|---|---|---|---|---|
| Espessura muscular a 50% do braço (cm) | 2,90 ± 0,92 | 3,01 ± 1,01 | 2,94 ± 0,97 | 3,08 ± 1,00 |
| Espessura muscular a 70% do braço (cm) | 2,94 ± 0,53 | 3,06 ± 0,55 | 3,01 ± 0,61 | 3,24 ± 0,67 |
| Força isométrica a 40° (kg) | 42,45 ± 12,05 | 40,84 ± 13,54 | 41,09 ± 11,11 | 39,15 ± 10,81 |
| Força isométrica a 100° (kg) | 28,35 ± 6,16 | 29,52 ± 7,14 | 28,26 ± 6,81 | 29,91 ± 6,73 |
| 1RM (kg) | 35,23 ± 13,08 | 43,88 ± 16,22 | 35,04 ± 13,32 | 41,77 ± 15,42 |
| Resultado | Diferença estimada (padronizada) | Prob. posterior | Fator de Bayes |
|---|---|---|---|
| Espessura muscular a 50% do braço | 0,04 [−0,09 a 0,17] | 72,7% | 2,66 (evidência fraca) |
| Espessura muscular a 70% do braço | 0,10 [−0,10 a 0,31] | 83,0% | 4,87 (evidência moderada) |
| Força isométrica a 40° | −0,14 [−0,90 a 0,61] | 36,3% | 1,75 (evidência fraca) |
| Força isométrica a 100° | 0,24 [−0,47 a 0,93] | 75,1% | 3,02 (evidência moderada) |
| 1RM | 0,17 [−0,63 a 0,94] | 66,1% | 1,95 (evidência fraca) |
Como interpretar
Tamanho do efeito: quão grande é a diferença?
Porcentagem engana. Pela diferença padronizada (a diferença dividida pela variação entre as pessoas), a vantagem da parcial foi de 0,10: trivial a pequena, segundo os autores.
No 1RM, a completa ganhou quase 2 kg a mais.
Evidência: quão seguros estamos?
Na régua dos autores, fator de Bayes abaixo de 3 é evidência fraca; de 3 a 10, moderada.
Evidência fraca de diferença não prova igualdade: com 13 pessoas, falta precisão.
Leitura honesta: provável vantagem pequena da parcial perto do cotovelo, e as duas técnicas funcionam.
Quanto confiar
Moderada para “as duas funcionam”; baixa para “uma é melhor”
Pontos fortes
- Sorteio do braço de cada técnica; cada pessoa foi o próprio controle.
- Avaliador do ultrassom sem saber qual braço era qual.
- Pessoas treinadas, o público que mais faltava nessa pesquisa.
Limitações apontadas pelos autores
- Amostra pequena, que pode ter escondido diferenças.
- Oito semanas podem ser pouco para mostrar todo o crescimento em treinados.
- O ultrassom não separou bíceps, braquial e braquiorradial.
- Vale só para pessoas já treinadas.
- A força isométrica a 40° foi a medida menos precisa.
Limitações que identificamos
- Só 2 das 13 pessoas eram mulheres, e não há análise separada: o resultado vem quase todo de homens.
- A carga não foi igualada entre os braços: a parcial levantou mais volume de carga desde o início. Não dá para separar o efeito da amplitude do efeito desse volume maior, como os próprios autores reconhecem na Discussão.
- O relato tem inconsistências: o resumo diz que a completa ganhou mais força a 100°, enquanto a Tabela 1, a Discussão, os pontos-chave e a Conclusão mostram vantagem da parcial; e a Tabela 2 põe cm e kg em valores que o texto chama de diferença padronizada.
O que o estudo NÃO responde
- Se vale para iniciantes, idosos ou atletas de competição.
- Se vale para outras roscas ou outros músculos.
- O que acontece depois de 8 semanas.
- Se a vantagem veio da amplitude ou do volume de carga maior da parcial.
Na prática
Cada dica traz uma etiqueta: o quanto o estudo a apoia.
Teste rápido
Perguntas frequentes
Repetição parcial dá hipertrofia?
Dá. Com pessoas treinadas, a rosca Scott parcial (0° a 70°) fez o braço crescer tanto quanto a completa, com leve vantagem perto do cotovelo.
O que são parciais alongadas?
Repetições só no trecho em que o músculo está mais esticado: na rosca Scott, do braço estendido até 70°.
Parcial alongada é melhor que amplitude completa para o bíceps?
Só um pouco, perto do cotovelo. A completa ganhou mais 1RM. As duas funcionam.
Referência completa
Havers T, Wagner N, Held S, Geisler S, Wiewelhove T. Partial Range, Full Gains? The Effect of 8 Weeks of Partial Range of Motion Training at Long Muscle Lengths on Elbow Flexor Hypertrophy and Strength in Trained Individuals. European Journal of Sport Science. 2025;25:e70087. doi:10.1002/ejsc.70087
Texto e explicações produzidos pelo Treino em FOCO; os gráficos foram desenhados do zero a partir dos números publicados. O artigo original é de acesso aberto, sob licença CC BY-NC-ND. Este conteúdo é educativo e não substitui a leitura do artigo.

Prof. Dr. João Augusto Reis de Moura CREF 007870-G/SC
Prof. Dr. João Moura tem mais de 30 anos de trajetória na Educação Física e mais de 20 anos no ensino superior. No Treino em FOCO Play, ensina Personal Trainers a transformar a ciência do treinamento em decisões práticas e seguras.